O Futuro do "Feito no Brasil": Como a Economia Circular Redefine a Competitividade.
- Mariana Karasiak

- 16 de jan.
- 2 min de leitura
Lendo a matéria recentemente publicada pela Vogue Negócios, sabe-se que a moda, responsável por até 10% das emissões globais de GEE (Gases de Efeito Estufa), precisa ser discutida de forma mais profunda, ser compreendida de fato como estratégia econômica, climática e territorial.
A matéria aborda temas extremamente relevantes e atuais sobre os desafios da moda brasileira: o descarte têxtil e a crise climática, o ultra fast fashion e a aceleração do consumo (com plataformas lançando até 10 mil novos produtos por dia), a ineficiência da reciclagem dentro de um contexto sistêmico, os impactos globais do descarte de resíduos têxteis, a influência das plataformas internacionais e da chamada “taxa das blusinhas”, além da assimetria competitiva e da valorização do feito no Brasil conectada à pauta de desenvolvimento territorial.
Refletindo sobre isso, a matéria nos mostra que, quando falamos de sustentabilidade, ela não pode ser tratada apenas como uma escolha individual do consumidor. Sustentabilidade é resultado de políticas públicas, regulamentação adequada, equilíbrio competitivo e ações sistêmicas, precisa ser um eixo estratégico para o fortalecimento da indústria nacional, tanto do ponto de vista econômico quanto social e climático.
O avanço do ultra fast fashion, por exemplo, intensifica o consumo impulsivo, acelera o descarte têxtil e expõe os limites de um modelo de produção linear. Os sistemas de coleta, triagem e reciclagem, que hoje são mínimos e sequer contam com parâmetros reais para mensurar o volume de resíduos têxteis gerados no país, não dão conta da quantidade de peças colocadas no mercado. O problema é estrutural, e não apenas uma falta de tecnologia. Estamos inseridos em uma lógica de produção baseada em extrair, produzir e descartar. A reciclagem, sozinha, já não resolve.
E vou além, vivemos em um mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) e cada vez mais BANI (frágil, ansioso, não linear e incompreensível). Nesse cenário, o excesso de estoque dentro de uma fábrica vira prejuízo, o desperdício vira risco e as cadeias de produção que estão dentro de uma estrutura global (longas), se tornam vulneráveis.
Encerro a reflexão com essa constatação: se a valorização do feito no Brasil, integrada a instrumentos regulatórios como a chamada “taxa das blusinhas”, tem como objetivo reduzir assimetrias competitivas, proteger empregos, fortalecer cadeias produtivas locais, diminuir impactos ambientais, e aumentar a resiliência do setor, a Economia Circular pode (e deve) ser uma grande estratégia.
Circularidade não é só reciclar: é pensar o pós-uso desde o design, reduzindo volumes e mantendo os materiais em circulação por mais tempo, além de regenerar sistemas (econômicos e sociais
também).
Em tempos de mundo VUCA e BANI, a sustentabilidade não pode ser apenas discurso. Precisa ser decisão estratégica para quem quer permanecer relevante na moda quando falamos de futuro.

Mariana Karasiak: Profissional com mais de 15 anos de experiência na moda, atuando em sustentabilidade, ESG, responsabilidade social e desenvolvimento de fornecedores. Foi docente, auditora, e atuou em grandes empresas como Cia. Hering, Grupo SOMA, GEP, e desenvolveu projetos para outras grandes empresas renomadas no Brasil. Participou de conselhos nacionais, presidiu o IMODA e co-organizou o Floripa Eco Fashion. Hoje é Sócia da Consultoria GRTex, especializada em projetos de sustentabilidade e economia circular para o setor têxtil e da moda.



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